BLETWEEN - CONTO TRAVESSIA ESPIRITUAL
Além de cascatas e árvores de bonsai ancestrais, em meio aos vilarejos, plantações de arroz e florestas de bambu um trio de comerciantes viajavam com sua humilde carruagem, repleta das mais variadas bugigangas e utensílios. Para os irmãos Lee a estrada era seu endereço, e qualquer lugar poderia ser seu lar, desde que estivessem juntos...
Kai, o irmão mais velho era o mais cauteloso, levava a profissão e o trabalho muito a sério, sempre cuidando de seus outros dois irmãos com atenciosidade e zelo. Taehoon, o irmão do meio tinha uma boa lábia para os negócios, seu corpo belo e seus cabelos negros cativavam moças e principalmente rapazes por onde passavam, ele sempre os convencia a comprar alguma coisa com seu belo sorriso. A irmã caçula era Yumiko, uma menina meiga e alegre que tinha muito jeito com as pessoas, sempre fazia amigos por onde passavam, ela amava ouvir suas histórias e saber mais sobre o mundo e seus mistérios...
O trio de irmãos não via a hora de chegarem no próximo vilarejo... Um bom banho quente, comidas gostosas e uma boa noite de sono era tudo que eles mais queriam após tantos dias acampando nos bosques e estradas.
Yumiko logo alegrou-se ao avistar uma vila logo à frente, mas quanto mais a carruagem se aproximava, mais o local parecia deserto...
O que poderia estar acontecendo naquele lugar? Onde estavam todas as pessoas? A encosta daquela montanha parecia desolada!
Quando estacionaram a carroça no centro da vila, uma rajada de vento frio os atravessou, rodopiando e levantado muitas folhas por onde passava.
Repentinamente, um barulho tomou conta do local, como o soar de um grande sino tradicional de templos budistas, o que significava que alguém o estava tocando... Era uma oportunidade de saber o que aconteceu com o vilarejo, por isso os irmãos decidiram seguir o som até sua fonte, a irmã mais nova porém decidiu ficar abrigada na carruagem, até que os irmãos voltassem com notícias...
Ao subirem as longas escadarias do templo antigo os rapazes avistaram um velho monge, com roupas tradicionais e um leque nas mãos, movendo-o lentamente como se estivesse dançando...
- Vocês não deveriam estar aqui! Exclamou o velho monge.
- Onde estão as pessoas desta vila? perguntou o irmão mais velho.
- Estão pelas ruas e pelas suas casas... Não conseguem ver?
- Como assim? Não há uma só alma viva por aqui! Disse o irmão do meio.
- Só porque você não consegue vê-los, não significa que não estejam aqui...
Então o monge começou a contar:
"Quando as últimas espigas são colhidas nos arrozais e os ventos do inverno tocam a encosta da montanha, o mundo material e o espiritual se cruzam, neste momento o véu entre os dois mundos torna-se fino como fios de seda...
Em uma recente noite de infortúnio o templo foi profanado, objetos sagrados foram roubados, e a paz entre os mundos foi abalada. Um grande cataclisma mágico abriu um portão pra o outro mundo, e todos os moradores acabaram sendo arrastados para dentro dele!"
- Saiam logo daqui! Disse o monge, não vão querer dar de cara com algum espírito pairando como chamas azuis em sua frente não é mesmo?
Ao retornar à carruagem, os dois irmãos ficam surpresos e repletos de pavor... Sua irmã havia sumido, a única pista eram dois pares de pegadas que iam até um bosque de bambus...
Após seguirem as pegadas, os irmãos dão de cara com um grande portão luminescente, com luzes de aspecto sobrenatural flutuando ao seu redor... Teria sua irmã sido levada como os moradores do vilarejo? Os garotos tiveram a certeza ao ver a fita que a irmã usava no cabelo amarrada no grande portão, como um sinal, um aviso, como migalhas de pão que indicam o caminho de volta, ou quem sabe, de ida...
Imediatamente os viajantes retornam ao templo, e ofegantes, pedem conselhos ao ancião...
Se ela realmente atravessou o portão, isso significa que ela tem uma jornada que precisa cumprir, ou ela sequer poderia vê-lo. Já que vocês também o viram, significa que o caminho de vocês se cruzará em breve...
Vocês têm duas escolhas: Esqueçam a garota, ou entrem por uma passagem cujo regresso é incerto!
Após muito pensar, estavam os dois rapazes frente a frente com o grande portão... Mesmo sentindo que não voltariam, eles entraram rumo às sombras, afinal, eles jamais seguiriam em frente sem sua irmã caçula...
CONTINUA...