BLETWEEN - CONTO TRAVESSIA ESPIRITUAL III
Eu corri!
Enquanto o vento uivava pela encosta da montanha, tudo que eu podia fazer era correr, afinal, estava sozinha.
Acho que praticamente não me lembrava da última vez em que estive sem minha família, os dias eram sempre parecidos, muitos lugares novos, muita gente por todos os lados e muitos assuntos para conversar com meus irmãos, até mesmo muitas provocações e risadas após tirar meu mano mais velho do sério...
Mas, eles não estavam ali...
Mesmo sem olhar para trás, eu não podia parar, eu sentia que aquele frio na minha espinha não era por acaso, e que o que eu havia visto da janela da carruagem ainda estava na espreita.
- “Venha para fora garotinha”, eles disseram... “Nossa majestade deseja te ver!”
- “Que maravilha! Que esplêndido! Não, não se preocupe, você jamais ficará sozinha novamente... O Imperador acolhe a todos! E nele somos um só!”
E como um coro de vozes distorcidas a névoa sussurrava como lábios frios e trêmulos: “Na morte nos tornamos família...”
Quanto mais a névoa ficava densa, mais os sussurros aumentavam, e aos poucos os vitrais coloridos das janelas ficavam embaçados, tornando a visão quase zero... Então você apareceu...
Sua voz se destacava em meio às outras, e de certa forma, eu sabia que podia confiar em você, que bom que eu não estava enganada!
Sem pensar duas vezes, peguei minha bolsa de trecos, e sai pelos fundos da carruagem, não sei muito bem onde estou, e nem por onde andei, os minutos que corri em meio à floresta de bambus por um momento pareceu que foram horas, ainda bem que pude seguir sua voz para chegar até aqui...
Por um momento eu sabia que não encontraria a saída daquele bambuzal tão facilmente, por isso amarrei uma fita vermelha em um velho portão que precisei atravessar para escapar...
- Você fez bem doce menina, não se preocupe, você está comigo agora, não deixarei que eles te encontrem, por isso vamos nos apressar...
- Por acaso o lugar que estamos indo, tem algo para comer?
- Claro que sim, onde vamos veremos ruas repletas de lojas, bancas, pessoas e seres diferentes, mas não precisa ter medo...
- Se eles forem como você eu não terei, olha essas suas caudas, são tão lindas, macias e brilhantes... Parecem mágicas!
- Obrigada, você é realmente adorável! Agora pegue isso, coloque esta capa e esse diadema... Essas orelhas de pano ajudarão você a se misturar, não queremos chamar atenção indesejada!
- Você sabe se meus irmãos ficarão bem?
- Tenho certeza que sim, eles ficarão preocupados, e com certeza irão te procurar... Mas tudo bem, nem ao menos uma folha cai ao chão sem um motivo ou uma razão. Enquanto as duas figuras encapuzadas caminhavam em direção ao centro do vilarejo coberto por um céu de luzes fosforescentes e duas luas, uma tempestade ameaçava se formar no grande castelo sombrio da parte mais afastada da cidadela... Luzes fantasmagóricas vagavam como fogo azul pelas estradas desoladas e uma tensão se formava em pleno ar, como se ele estivesse se tornado mais pesado, e nem mesmo o vento que antes corria como uma matilha de lobos ousava transitar.
- Espero que meus filhos não tenham sentido muita saudade...
- Mestre, mestre, ela conseguiu escapar! Perdoe-nos!
- Não se aflijam caros espíritos...
- Ela teve ajuda!
- Sim, nós a vimos com “Ela”, é tudo culpa dela!
- Pobres almas perdidas, devo salva-las de si mesmas...
- E agora vossa alteza, o que faremos?
- Vocês?
- “Nãooo”, “por favor nos perdoe”, s-ocorr”, “clemência...”
- Ahh... Assim é melhor... Na vida vocês são heróis e vilões, na morte são todos partes da minha fonte poder...
- Espíritos, solitários e perdidos, comigo, vocês têm um propósito! Eu reinarei mais uma vez!
- Experimentei a vida e a morte, e entre elas duas descobri a imortalidade... Para os vivos, sou um demônio, para os mortos, sou a salvação!
- Não chorem, eu volto logo, logo...
CONTINUA...