LUNAR: NAÓS DA LUA VELADA
A Dádiva e a repulsa da Lua...
Um pergaminho foi encontrado por Pytra nas ruínas, mas era diferente dos demais. Trouxe-o para a minha casa e o desenrolei cuidadosamente. Seu papel parecia mais descorado e antigo do que os outros, e a escrita era arcaica, mesmo para aqueles tempos. Agora são exatamente 2h22 da manhã; uma vela, já pela metade, o ilumina com dificuldade, tornando possível ver apenas o papel surrado e mais nada. Um breu toma conta do local, e apenas o crepitar da lareira é audível. A escritura parece ser datada de séculos atrás... Com o tremor do frio, irei começar a leitura.
Saudações, meu nome é Hyu . A senhora Z me encontrou jogado em uma viela, tomado pelo frio e pela fome. Ela me acolheu e disse que, neste mundo, às vezes, precisamos ser egoístas. Desde então, ela cuida de mim e me treina. Já fazem doze invernos. Estou escrevendo este pergaminho na esperança de que alguém o leia.
Sob o véu da noite estava eu me dirigindo ao casebre, para encontrar minha sensei, Z. Quando abri a porta lentamente, evitando qualquer ruído, deparei-me com ela vestindo seu manto branco e segurando em mãos o seu cajado dourado de ponta em espiral. Não era um treino. Seu olhar baixo e a expressão intimidadora diziam-me que era uma partida, mesmo sem que pronunciasse uma única palavra.
Era noite de Lua cheia. O frio chegava a congelar as pálpebras; todos estavam em casa, acalorados pelo fogo. O ar era pesado, e a ventania batia com força em qualquer janela que permanecesse aberta. Com seus seis olhos no rosto, Z olha para mim e acena com a cabeça, franzindo a testa. Então, um trovão ecoa. Ela ergue o olhar, como se já o estivesse esperando. Suas orelhas pontiagudas se movem, reagindo como a um chamado, e ela parte como se realmente fosse atendê-lo. E ela foi.
Com apenas um gesto de seu cajado, ela elevou cerca de dez centímetros do chão e se teleportou até o local que desejava: o Náos da Lua Velada. Nesse momento, fui junto, pois segurei em sua manta. Já havia feito isso antes, afinal, sou seu aprendiz.
Então, chegamos ao Náos da Lua Velada: Uma ruína com um lago gigantesco, lindas cachoeiras à luz do luar moviam as águas sutilmente. O frio tomava conta, e a Lua parecia mais próxima do que o normal. Trovões e relâmpagos se faziam presentes, e a chuva densa apresentou sua cordial presença. O medo tomou conta do meu corpo. Paralisei por completo; minhas pupilas dilataram, minhas cordas vocais já não funcionavam, minhas patelas bateram ao chão quase que instantaneamente, meus tímpanos sangraram e meu coração alcançou duzentos batimentos por minuto. Z me lançou para trás de uma obsidiana negra que media cerca de um metro. Dava apenas para eu ficar encolhido.
A senhora Z não estremeceu por um minuto. Ela estava a cerca de cinco metros à minha frente, olhando para cima e pronta para a batalha, como se fosse apenas mais um dia habitual. Então, uma voz grave e gélida pairou sobre o Náos. A água do local se agitava como um mar revolto, e todos os peixes, até então pacatos, tornaram-se inquietos.
(...)
Lua : Já era tempo de nossos caminhos se cruzarem, não é, Z? Você sempre esteve por aí, mergulhada na alquimia, nos pergaminhos antigos, nos estudos incessantes… e sempre se metendo onde não devia.
Z : Está com medo, oh Deusa, de descobrirem o que há nestas ruínas? O povo que você jurou proteger sendo enganado todo esse tempo. Seu egocentrismo é gigantesco, e sua prepotência me causa repulsa.
Lua : Da batalha anterior, você escapou ilesa. Já faz uma década desde que nos encontramos. Vejo que ficou mais forte e confiante. Será que esses seus seis olhos conseguem enfrentar meus quatro Yokais?
Z : Ah, quatro Yokais, é? Espero que não se cansem antes de eu terminar meu treino.
Lua : INSOLENTE, PREPOTENTE, TIRÂNICA! DESPERTEM YOAKAIS!!!
(...)
Quatro guerreiros surgiram nos céus em queda livre, com armaduras completas e elmos fechados. Suas ombreiras largas reluziam como prata sob a luz da Lua. Empunhavam espadas douradas, que brilhavam intensamente, destacando-se na escuridão banhada pelo luar. Ao atingirem o chão, cravaram o punho esquerdo no solo, mantendo a cabeça erguida e a espada na mão direita, segurada horizontalmente, os pés posicionados como os de um corredor, prontos para avançar contra Z.
Minha sensei não recuou; pelo contrário, parecia absorver a própria tensão do ar ao redor. Com um único giro de seu cajado, uma aura de mana azul explodiu de seu corpo, enrolando-se em espiral ao seu redor como uma serpente viva e luminosa. A energia pulsava com força, refletindo-se nos meus olhos, e pela primeira vez em minha breve vida, percebi que Z estava prestes a lutar de verdade.
Então, os quatro Yokais avançaram em direção a Z, suas espadas reluzindo como se dançassem em perfeita sincronia. O golpe que desferiram seria letal para qualquer humano… mas não para ela. Com um giro rápido de seu cajado, uma onda de gelo seco disparou, atingindo as lâminas e congelando-as instantaneamente, fazendo-as parecer pesarem mais do que o triplo do normal.
As mãos dos Yokais caíram ao chão, incapazes de sustentar as armas, e Z aproveitou os preciosos cinco segundos de hesitação para exalar um sopro gélido que cortou o ar em direção a seus rostos. O ódio queimava nos olhos dos guerreiros, e eles avançaram novamente, desta vez surgindo de ângulos diferentes, tentando cercá-la, mas Z estava pronta para cada movimento, como se previsse cada passo dessa dança mortal.
A Lua então falou em tom debochado e sutil: "Você morre aqui. O sobrenome Zoe jamais será pronunciado novamente neste mundo. De nada adiantou você subtrair os meus poderes daquele maldito baú."
Pude ver no rosto de Z o ódio profundo seguido por uma raiva incessante. Ela esperou até que todos os Yokais estivessem a apenas trinta centímetros de seu corpo e, então, espinhos de gelo surgiram de todo o seu torso, medindo de oitenta centímetros a um metro. Eram tão pontiagudos que nem mesmo as pesadas armaduras dos capangas resistiram: despedaçadas no mesmo instante, permitiram a perfuração de todos os órgãos do corpo.
Os quatro caíram ao chão, e as estacas de gelo que emergiam do corpo de Z estavam manchadas de sangue. A luz da Lua, agora, iluminava ainda mais o Náos, revelando algo aterrador: uma espada dourada atravessava o pulmão de Z, de baixo para cima. Um dos Yokais a segurava, já morto pelo gelo. Ela os deixou chegar perto demais.
Me levantei de trás da pedra, minhas cordas vocais, que há minutos haviam falhado, finalmente cederam. Em um instante desesperador, berrei pelo verdadeiro nome da minha sensei. Corri cambaleando, cada passo levantando pequenas rajadas de vento com minha respiração gelada, até me aproximar dela.
Vi seus espinhos de gelo se partirem e seu joelho dobrar-se lentamente ao chão, cada estalo ecoando como um presságio.
Abracei-a uma última vez, sentindo seu corpo tremer sob minha mão, e então ela sussurrou em meu ouvido, a voz quase um fio: co… cor… corra, Hyu. Com o que restava de sua força, ela me lançou para longe novamente. Enquanto corria sem rumo, ouvi o barulho ensurdecedor de seu corpo caindo ao chão. A Lendária Z estava morta.
A Lua então recitou as palavras, quase como um poema: " Quem perturba a hierarquia prejudica as relações de subordinação. Em respeito a sua linhagem, irei petrificar os quatro Yokais mortos por você, lendária Z. Apenas em sua morte alguém se curvará ao seu poder."
*barulho de frasco se quebrando*
Continua...
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