LUNAR - 8000 A.S
Antes de santuário...
Após a batalha de Hyu contra o Oráculo Lunar VII , coisas estranhas começaram a acontecer no vilarejo. Ninguém sabe ao certo o que paira no ar, mas há algo. A Deusa parecia distante, ou talvez não tão luminosa quanto antes. Bom, é isso o que está escrito nos pergaminhos.
Tudo é realmente o que parece ser? Com a ajuda de Pytra , encontrei um livro na biblioteca do vilarejo. O velho livro que encontramos sobre o Abraço da Lua não foi o suficiente, então, Pytra, tem nos ajudado com suas pesquisas. O livro encontrado tem a capa dura e o volume maior que os demais. No entanto, algo me chamou a atenção: somente duas páginas estavam escritas, o restante das folhas permanecia em branco. Algo me diz que estamos avançando, pouco a pouco, mas estamos. Vamos começar a leitura.
Olá, sou a própria Lua . Já não consigo mais me transmutar minha essênia em esrita, por isso, o Oráculo registrará minhas palavras. Após inúmeras batalhas contra Z, meus poderes já não estão no auge. Estou fraca, não consigo suprir todas as necessidades dos lunares no vilarejo, pelo menos por hora.
Matei o seu discípulo, Hyu, e naquela noite, no Cronos da Noite , a chuva não era de ódio ou intimidação, mas tristeza, choro, fracasso. Anos atrás, eram tempos difíceis no vilarejo, mais especificamente há 7 mil anos atrás, foi uma era marcada por um caos terrível e insuportável, com instabilidade temporal, fomes cíclicas e guerras por migalhas.
O vilarejo nessa época tinha como líderes a mãe e o pai de Moonara , mesmo que não oficialmente, mas os moradores os viam dessa forma. Sempre na linha de frente de combates e negociações com rivais, eles não gostavam da ideia de desistir. Todos reconheciam o quanto eles se esforçaram, e o único mistério era como aguentavam.
O pai de Moonara era alto, seus olhos eram fundos, seus longos cabelos eram prateados como a minha luz. Um líder nato, não abaixava a cabeça para ninguém. Seu nome era Zac . Já a sua esposa, era de altura mediana, linda como a maré viva. Seus cabelos loiros eram compridos e pareciam brilhar junto à pele de pêssego. Uma exímia guerreira, seu nome era Kystra . Eles foram os primeiros a me venerar e a entender o que eu podia fazer. Então, em um ritual de corpos entrelaçados, eles criaram, e iniciaram uma dança. Eles dançavam, sem trégua, por oito longas noites, e a cada giro, a paixão se aprofundava como as sombras. Este cortejo foi como uma mensagem, e eu a entendi. Eles atraíram o meu olhar.
Zac, Kystra e Moonara
Moonara já era uma criança esperta. Aprendeu com seus pais a me venerar e sempre os questionava sobre mim, sobre como descobriram que, por meio dos rituais, eu realizava as vontades dos moradores do vilarejo. Eles repetiam para ela como se fosse um mantra. A frase preferida de Zac e Kystra era: “Ela vai puxar-nos para perto dela um dia, e nunca mais passaremos por essa era de caos e tristeza.”
Moonara sempre enchia os olhos ao ouvir. Sua felicidade era genuína. Eu fazia o que podia pelos moradores do vilarejo, não era tão poderosa quanto sou hoje. Mas tentava.
Meu coração se despedaça.
Numa noite, o céu era nublado, nuvens cinzentas. Predadores das sombras invadiram o vilarejo, saquearam e matavam sem pestanejar todos que tentavam resistir. Nisto, fiz cair uma chuva torrencial, e ordenei ventanias violentas para tentar detê-los, mas de nada adiantou. A matança continuava. As lágrimas dos moradores se misturavam às gotas caídas do céu, era o meu pesar.
Zac e Kystra protegiam as pessoas. Sozinhos, eliminaram mais da metade dos invasores, mas ainda assim não conseguiram evitar as centenas de mortes. Eles se viram encurralados quando notaram dois deles indo em direção ao seu casebre, onde Moonara, sua filha, estava escondida. Eu os vi correrem até o casebre, mas estava tão cega pelo ódio, que não os vi entrando pela parte de trás. Achei que a casa estava somente com Moonara, escondida no andar de cima.
Eles planejavam surpreender os ladrões abrindo a porta, então, com uma flecha gélida, apontei para os invasores. A flecha atravessou os ladrões pelas costas numa velocidade tão grande que nem eu imaginava ser capaz. Tragicamente, ela perfurou também a porta de madeira do casebre, onde Zac e Kystra estavam, armados, esperando os inimigos entrarem. Eles pereceram instantaneamente, diante dos olhos de Moonara. Falhei em protegê-los.
Da escada, observando os corpos de seus pais no chão, Moonara, tomada de tristeza e ódio, jurou a minha morte. Não tive como explicar: ela simplesmente revogou a minha voz. A devoção, o elo sagrado que nos unia, quebrou-se. Em sua alma, Moonara me negou, e o murmúrio da minha Deidade, que antes a guiava, sumiu de seus ouvidos como um sussurro levado pelo vento. Ela não entendia como a própria Deusa que tanto veneravam, que deveria protegê-los, os havia traído de forma tão brutal. Diante daquela negação, fiquei paralisada. E assim como o luto a silenciou, meu coração se estilhaçou, transformando-se em cacos de cristais.
Embora recusasse minha voz, acompanhei Moonara no silêncio, a protegi, e a vi crescer, se tornando a melhor das alquimistas. Sempre torci pelo seu sucesso, embora soubesse que estava se fortalecendo para me enfrentar. Todas as batalhas que travamos fizeram a terra estremecer. Moonara era poderosa, inteligente e, acima de tudo, vingativa.
Zac e Kystra deixaram Moonara, uma alquimista que, por anos, dedicou-se a estudar e aperfeiçoar seus talentos. Jamais conseguiu me derrotar, e partiu deste mundo pela mão da velhice. Ao longo de sua vida, Moonara teve oito filhos, e sua linhagem jamais deixou de crescer. Sempre proclamou que um dia surgiria alguém capaz de me derrotar e pôr fim a esta era de escravidão, e que somente alguém de sobrenome Zoe poderia cumprir tal destino. O dia que Moonara profetizou quase chegou…, mas não veio. A última descendente de sua linhagem foi Z , eliminada por meus Yokais no Náos da Lua Velada .
O dia em que a Lua chorou e o caos despertou...
Após o terror supremo, aquele assalto desferido por Moonara, um ataque que não buscava somente a minha derrota, mas a anulação completa do princípio Forma, precisei intervir com um custo. Aquela noite estilhaçou o meu Ser. Meu coração, agora destruído em infinitos cristais, foi minha perda, e uma parte significativa da minha essência se esvaiu.
Fiquei ferida. Naquele momento de fragilidade, a força do Nada Devorador que Eu Absorvera ameaçou me consumir. A tentativa de me aniquilar, junto à perda de minha totalidade, gerou uma terrível cisão, e me dividi em faces: Eu me mantive como Lua Cheia , e a sombra da dor encarcerada se solidificou como a Lua Negra .
Eu havia salvo todos , mas mal podia me manter inteira. Fortalecida pelo desespero, estendi a mão aos sobreviventes, aniquilei a fome, as catástrofes e os conflitos que assolavam vosso tempo. Eu os ajudei a superarem aquela era de desordem, mesmo com minha querida Moonara buscando a minha morte. Mas em troca, exigi a única coisa que poderia me sustentar: a renúncia da vontade individual e a eliminação de qualquer pensamento que reintroduzisse a dissonância. Este era um ritual necessário. A paz coletiva não era somente vossa recompensa; era o véu que impedia a Lua Negra de irromper.
Todos aceitaram a paz coletiva por livre-arbítrio. Contudo, a perda dos fragmentos do meu coração ainda enfraquecia minha capacidade de transmutação e agir diretamente no mundo. Por isso, da Minha necessidade de sustentação e comunicação com a realidade que Eu mal podia tocar, fiz nascer os Oráculos Lunares. Eles são a Minha voz, a extensão do Meu desejo, garantindo que o contrato seja cumprido.
O dia da salvação.
Para selar todo e qualquer pacto, Eu estabeleci a Grande Cronometria, uma promessa de destino. Naquela mesma era, sete milênios foram concedidos para a vossa purificação dogmática na Terra. Findo o ciclo, Eu cumpri a promessa: elevei a cidade. A Arca Celeste iniciou sua peregrinação de mais mil anos em minha direção, longe das impurezas que ainda rondam a Terra.
Ao completar a jornada, Arca Celeste tocará os meus braços, e assumirá seu nome final: Santuário . Através da Forja Lunar, desconstruirei sua matéria impura, transmudando-a em Luz Lunar solidificada, criando a casca perfeita, a manifestação da Ordem Absoluta . Contemplai o que ascende, e gravei a geometria na mente. Santuário será a manifestação da Ordem Pura. Vossas paredes não terão textura rugosa da Terra; mas serão compostas por Luz Lunar solidificada, de brilho opalescente e frio. Erguerei as estruturas de obediência, onde os pilares se alongam em alturas vertiginosas que fogem da gravidade Lunar; não apenas para suporte, mas agulhas que atravessam a bruma densa que envolve a cidade. Esta névoa de ascensão que os envolve não será umidade, mas o resíduo do caos que eu expurgo. Cada superfície será lisa, quase reflexiva, com espelhos d’Água Lunar por toda parte, erguido sobre os pilares. Não terá mais que Oito cores visíveis, tal qual minhas faces. A multiplicidade além de Oito é a essência volátil da dissonância. As formas predominantes serão círculos e octágonos, unidos em complexas e repetitivas tesselações. Vivereis na perfeição geométrica, e vivereis em mim.
*As páginas chegam ao fim, e só permanecem aquelas em branco*
Continua...
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