BLETWEEN - CONTO TRAVESSIA ESPIRITUAL V
- Tchau irmão, cuide-se, e tente não se meter em problemas...
- Relaxa! Está tudo sob controle, vamos achar nossa irmã e dar o fora desse lugar... Sou muito novo e bonito pra passar dessa pra melhor!
- Você não tem jeito mesmo Taehoon...
Então os dois irmãos seguiram estradas opostas, enquanto o mais novo seguia empolgado, o mais velho seguia olhando tudo a sua volta na esperança de encontrar a pequena Yumiko.
Chegando próximo a uma velha casa de chá ele viu uma velha senhora de cabelos brancos e um enorme coque a varrer as folhas do chão...
- Com licença senhora, por acaso você viu uma garota humana passar por aqui?
E a senhora nem sequer voltou seu olhar para o rapaz.
- Senhora?
E ela continuava a varrer... Então Kai resolveu seguir seu caminho. Ao caminhar um pouco mais, avistou um garoto sentado sobre uma enorme rocha, de pernas e baços cruzados, como se estivesse em profunda meditação, não havia escolha, ele iria ter que incomoda-lo.
- Ei garotinho! Pode me ajudar?
O garoto abriu apenas um dos seus olhos, transmitindo um olhar de desapontamento e frustração por ter perdido o foco de sua meditação.
- O que você quer? Eu não sou um garoto.
- Estou procurando uma garotinha mais ou menos da sua idade, ela tem cabelos pretos longos, e se parece um pouco comigo.
- Não me chame de garoto! Eu acabei de dizer...
- Ah entendi, geralmente garotos não gostam de ser tratados como criança pelos mais velhos...
- Como assim, mais velhos? Por acaso você acha que eu tenho quantos anos? Saiba que fui um dos primeiros a chegar por aqui! E você deveria me chamar de senhor, ou honorável ancião.
- Co-como assim? Mas você parece um garotinho!
- As aparências aqui não dizem nada! A forma exterior não representa o que se tem por dentro...
De repente aquele espírito que parecia tão jovem começou a brilhar, transformando-se em um ancião com uma barba branca tão longa que tocava o chão.
- Respondendo a sua pergunta: Já que está procurando algo perdido, porque não vai até o templo do solstício? Todas as coisas perdidas acabam parando lá... Basta seguir até o fim desta estrada.
- “Arigatou gozaimasu ”, disse Kai inclinando-se como forma de agradecimento e respeito.
Logo chegando na calçada do templo, Kai avistava um pátio repleto de malas, baús, ânforas e caixas... Aquele lugar por um momento o fez lembrar de como eram os seus dias a pouco tempo atrás, sua carroça e seu trabalho.
Ao entrar ele podia ver centenas de prateleiras repletas de todos os tipos de objetos... Não objetos opulentos, objetos do cotidiano: bules, molhos de chave, talheres, cinzeiros, brinquedos, vasos, chapéus extravagantes, e algo que o chamou bastante atenção no centro do salão... Uma penteadeira de mogno com detalhes entalhados e um espelho sem luz, ou seja, onde não se podia mais ver o reflexo.
Kai ficou surpreso ao ver o quão grande era o interior daquele local, que por fora parecia até ser bem pequeno. Ao andar pelos corredores, ele tinha a impressão de que poderia andar quilômetros a fio.
- O que foi isso? São barulhos de passos? Será que Yumiko está mesmo aqui?
O jovem corria pelos corredores atrás dos sons de passos, mas sempre acabava no mesmo lugar, o centro do templo. Ele subia escadarias, passava por portas, mas sempre acabava no ponto de partida. Algo parecia errado naquele lugar.
- “Está perdido pobre rapaz?”, disse uma voz vindo do salão.
- Quem está ai? Disse o rapaz olhando para todas as direções.
- Estou aqui... Não vê?
Respondeu uma jovem moça, sua aparência era marcante: uma pele muito alva, cabelos negros e lisos que acompanhavam a silhueta de seu corpo cheio de curvas, lábios cor de vinho e um roupão de seda vermelha com um decote em formato de V.
Kai ficou um tanto quanto desconsertado ao ver uma moça tão bela, principalmente por não a ter visto antes. Mas engoliu seco e a cumprimentou de forma respeitosa e tímida.
- O que te traz à casa das coisas perdidas?
- Estou procurando uma pessoa importante para mim, disse Kai.
- Oh, não me diga, eu também, que coincidência! Quem seria ela? Um amor do passado?
-Ah, não, disse ele embaraçado ao corar.
- Desculpe, seria “ele”?
- Não, busco minha irmã caçula...
- Que pena... Espero que ela não fique triste por não o ver novamente nesta vida...
- Como assim? Como pode dizer isso? Foi um pouco cruel...
Antes mesmo de completar suas palavras, Kai viu-se sozinho no salão, ele, as tralhas, e a velha penteadeira.
Ao olhar pelas janelas, ele via a noite quase chegando, então resolveu sair dali, afinal não havia nenhuma pista de sua irmã por lá, quem sabe Taehoon tivesse tido mais sorte, ele pensou...
Passos para lá, passos para lá... Quem sabe aquela escada? E aquela porta? Já passei por lá!
Isso mesmo... Por mais que Kai andasse, ele não conseguia encontrar uma saída para aquele lugar...
Com o cair da noite, as coisas não pareciam as mesmas, Onibis flutuavam como orbes de fogo azul pelos corredores, ele sabia que devia fugir deles, afinal, todos sabem que se um deles encostasse em um humano sua força vital seria sugada, e a morte seria certa.
Os objetos de antes nas prateleiras, pareciam inquietos, alguns pareciam ter ganhado vida, como os Tsukumogamis das histórias que ele ouvia quando era criança. Certamente não eram comuns... Estavam possuídos!
Ao andar pelos corredores iluminados pela luz da lua, ele podia ver coisas que não havia visto antes... Coisas que ele não esqueceria tão cedo: corpos mumificados, secos e ressecados pelos cantos, como se tivessem sido sugados por algo, ou morrido de fome e sede naquele lugar, ossos espalhados pelo chão, marcas de arranhões nas portas, marcas de batidas nas janelas... Seja lá o que houvesse naquele lugar, as pessoas que nele entravam pelo visto não conseguiam sair...
CONTINUA...