BLETWEEN - CONTO TRAVESSIA ESPIRITUAL VI
Taehoon estava um tanto quanto intrigado com aquela criatura folclórica que acabava de conhecer, era como se todos os contos que ele ouviu quando criança fossem reais, na verdade, sim, eram todos reais!
- Como assim virar um yokai?
- Isso mesmo, os yokai são criaturas sobrenaturais, lendas vivas que andam por aí todos os dias. Alguns os chamam de demônios, ou até mesmo de monstros. Nem todos os yokai são maus, mas os que são trazem má fama a todos os outros.
- Bem, obrigado pela conversa, mas preciso ir, você pode ter todo tempo do mundo, mas aqui o tempo é meu inimigo.
- Tudo bem, também estou indo naquela direção, mas não estou com pressa, pode ir na frente, disse a Nekomata.
O jovem apressou então seus passos, ele já conseguia sentir uma brisa úmida, aquilo significava que ele estava bem perto de seu destino, velho Dojo onde estava a katana perdida, muito preciosa para o velho espírito com aparência de sapo...
O que o velho sapo astuto não contou ao humano é que o Dojo ficava literalmente no meio do lago... Grande parte da estrutura estava submersa em meio às águas escuras e paradas, e a parte composta por torres que ficava para fora parecia desolada e ameaçadora. Nem mesmo a luz parecia penetrar as paredes e fendas das ruínas.
- Sério que vou ter que nadar para chegar até lá? Era só o que faltava! Espero que esse sapo velho tenha uma informação boa, ou ele vai se ver comigo!
- “Se eu fosse você teria muito cuidado... Esse lago é repleto de Kappas, caso eles o peguem farão picadinho de você!”
- Meu deus! Que susto! É você de novo gata? Porque sempre chega assim de mansinho?
- Eu sou uma gata ué, o que você esperava?
- Você está me seguindo? Por acaso quer atravessar o lago comigo?
- Sem chances, odeio me molhar! Boa sorte com seja lá o que esteja pretendendo... Espero que não esteja planejando saquear aquelas ruínas...
- Que? Como pode pensar isso de mim? Estou fazendo isso para ajudar uma pessoa que gosto muito, e precisa de mim!
- Calma, eu estava brincando... Posso ver sua aura, e ela não é de uma pessoa ruim...
Após chegar ao meio do lago, Taehoon mal via a hora de descansar, mesmo tendo um corpo viril e atlético ele não costumava nadar muito... Até mesmo o chão era convidativo...
Estava quase escuro, as duas luas já podiam ser vistas naquele céu sobrenatural. Quando finalmente recobrou as forças resolveu entrar no Dojo.
Ao andar, ele notou que o piso estava um pouco desgastado, e que precisaria olhar com muito cuidado ou acabaria no fundo do lago de novo, ou pior...
Após andar pelas salas o lugar parecia intacto, pelo visto ninguém ia até lá a muito tempo, os únicos vestígios deixados eram mobílias, espadas quebradas e esqueletos. Em todas as salas haviam armaduras samurai tradicionais, por um momento ele pensou em desistir, aquelas velharias realmente davam medo em qualquer um.
Chegando ao interior do antigo local um grande tatame estendia-se à frente de Taehoon, e no seu centro a katana tão desejada repousava em cima de um suporte adornado. Diferente das espadas quebradas, ela parecia intacta, sua lâmina parecia extremamente afiada, seu cabo com entalhes brancos e vermelhos dava à peça um ar de nobreza e pompa.
Das frestas de luz criadas pelos vários buracos do telhado a luz do luar penetrava a sala, como um holofote que deixava a katana ainda mais bela, parecia até mesmo encantada, o metal refletia a luz e clareava minimamente o breu do recinto, permitindo que Taehoon enxergasse muitos pergaminhos em prateleiras, retratos nas paredes e muitas manchas marrons no chão que um dia foi lustroso, elas tinham aspecto marrom avermelhado, o cheiro de ferro no ambiente misturava-se com o cheio salgado das águas da lagoa.
- Finalmente encontrei! Exclamou o jovem que transbordava de felicidade ao se dirigir ao meio da sala.
- No final das contas, não foi tão difícil assim... Minha missão está completa!
Ao tocar na katana, o rapaz sentiu um estranho calafrio, que logo deu lugar a uma sensação de amargo na boca e tremor nas mãos... Ele não conseguiu segura-la, então ele soltou a arma, que caiu de ponta no chão, fincada no meio do tatame...
A estrutura do lugar parecia ranger, o som parecia o de uma fera raivosa que acabara de ser acordada. A luz da lua que iluminava o salão aos poucos foi preenchida com escuridão e o céu foi encoberto por nuvens escuras e pesadas, e o lago de águas paradas cobriu-se de neblina.
A katana não mais estava fincada no assoalho, ela pairava no ar envolta em uma aura maligna, que aos poucos tomou a forma de um samurai fantasmagórico.
- Quem ousa invadir a minha casa? Disse o samurai fantasma.
Taehoon não conseguia sequer mover-se, seus olhos estavam fixos no yokai, suas pernas tremiam, e ele mal conseguia respirar, o ar parecia pesado, e seus pulmões pareciam que iam explodir.
- Você tem muita coragem, ladrão! Você pagará pela sua insolência com a sua alma! Cortarei sua garganta com a minha lâmina, e você se juntará aos milhares de homens que ela dilacerou.
Então o samurai brandiu sua katana, erguendo-a sobre o Taehoon, pronto para deferir-lhe um golpe fatal... Congelado pelo medo, a mente do rapaz saltava de pensamento em pensamento: sua família, sua irmã, a história que o velho sapo lhe contou, como ele foi parar naquele lugar... Perdido em memórias, seu cérebro tentava leva-lo a um local seguro do seu subconsciente.
- Eu vou apagar a luz desses seus olhos! Disse o espírito desferindo um golpe letal.
Um forte estrondo ecoou pelo lago, estilhaços de madeira pairaram no ar e poeira tomou conta da sala.
Quando finalmente a poeira começava a baixar, o samurai avistou duas chamas azuis movendo-se em balanço.
Olhando para baixo, o yokai viu uma enorme rachadura no tatame causada pelo impacto de seu golpe, mas o rapaz que ele pretendia matar estava jogado no chão ao lado de uma gata com duas caudas, com uma chama na ponta de cada uma delas.
- Vamos garoto, levante-se! Não temos tempo a perder! Vai reagir ou prefere morrer aqui mesmo? Disse a Nekomata que acabara de salvar sua vida.
Os dois saíram correndo pelos corredores, e após distanciar-se do samurai, esconderam-se dentro de um armário.
- O que você pensa que está fazendo aqui? Que ideia maluca foi essa de tentar tirar um objeto amaldiçoado desse lugar? O lugar daquela katana maligna é nessa sepultura fria e úmida...
- Eu juro que não sabia, o velho espírito sapo me disse que a roubaram dele!
- Como você é idiota garoto! Aquele sapo velho é conhecido por enganar espíritos tolos para fazer seu trabalho sujo... Nada de bom sai daquela boca suja dele. Sua enorme língua serve apenas para contar mentiras.
- Esta espada pertencia a um velho samurai enlouquecido... Ele já foi um grande guerreiro, guarda de um importante senhor feudal, mas seu espírito não conseguiu seguir em frente. Uma longa guerra chegou ao fim, mas ele não via sentido na vida, não havia ninguém esperando seu regresso, ele se sentia uma espada quebrada, por isso ele procurava brigas com todos a fim de morrer pela espada, como um guerreiro, não como um velho decrépito.
Taehoon esboçava um semblante de medo, decepção e raiva, raiva de si mesmo por ter acreditado em uma história tão tola...
- Não temos tempo para lamentos, disse a Nekomata.
- Precisamos dar o fora daqui o mais rápido possível !
CONTINUA...